2.3.1. Síntese da Origem e Evolução Histórica da
Educação Espírita.
Neste ainda despontar do Século XXI, a
humanidade está vivenciando, embora timidamente, os auspícios de uma “nova”
modalidade de educação – nova no sentido de que ela tem apenas 156 anos.
Trata-se, pois, da Educação Moral Espírita que se nos apresenta uma proposta
renovadora de educação para a reforma íntimo-moral, para a aquisição e
edificação dos valores éticos e morais do ser humano. Com efeito, vale
ressaltar, todavia, que parte dessa humanidade está vivendo a época edificante
da Educação Espírita, a época da educação para o Espírito encarnado. Enfim, uma
boa parcela da humanidade está, deveras, vivenciando a época do “paradigma do
Espírito” (INCONTRI, 2004 p. 80).
A respeito do paradigma do Espírito, a
professora e escritora Dora Incontri, justifica:
O Espírito vem sendo apreendido empiricamente
em toda a história da humanidade, mas a partir do século XIX passou a ser
objeto de pesquisas científicas. Considerando-se que a ciência possa alcançar
algum grau de segurança em suas teorias, quando confrontada com os fatos, até
agora, as pesquisas realizadas desde os primórdios de Kardec, passando pela
velha metapsíquica e chegando à atual parapsicologia, tem evidenciado a
existência de um princípio existencial independente do corpo biológico e que
pode agir por meios extrafísicos. Em alguns casos, demonstra-se que esse
princípio espiritual sobrevive à morte do corpo (INCONTRI,
2004, p. 84).
Então, notório é que os fatos relativos à
percepção extra-sensorial ainda não se ajustam à teoria física da ciência dos
homens, a ciência materialista, aquela que Infelizmente ainda se encontra
radicalizada e incrustada nos íntimos das esferas do materialismo céptico. O
tempo trará a todos, com certeza, boas “novas”, retirando o véu e a catarata
que oblitera a visão e a razão dos mais agnósticos e menos crédulos.
Com efeito, o nascimento da Educação Espírita
ainda não se completou. Começando com Kardec, em 1857, na França, portanto, há
mais de um século e meio, entretanto, ainda está se processando em nossos dias.
Por esta razão, faz-se mister que todos os cristãos sintam-se convocados a
participar desse tão dignificante e extraordinário acontecimento educacional e
espiritual, pois, só assim é que poderemos contribuir eficazmente, cada qual à
sua maneira, a seu jeito e a seu tempo, a fim de que ele possa se completar e
se efetivar definitivamente e o mais rapidamente possível (PIRES, 1985).
A propósito, cada educação teve a sua época
respectiva, teve a sua missão edificante, dinamizadora e facilitadora da
formação dos indivíduos. É oportuno destacar que a grande missão da Educação
Espírita, na época atual, é a formação moral e o desenvolvimento integral do
ser humano, ou seja, a edificação de um homem novo. Nenhuma outra modalidade de
educação trouxe essa proposta moral para o ser humano, visto que ela não está
presa a dogmatismos tradicionais, a fanatismos, tampouco à catequização que
alicia, que aliena e estigmatiza e, que não raro, tenta agir pelo convencimento
(PIRES, 1985).
Em vista disso, de acordo com o autor
supracitado, a Educação Clássica greco-romana formou o cidadão, o homem
vinculado à cidadania e suas leis, servidor do Império; a Educação Medieval
formou o cristão, o homem submisso a Cristo, portanto, sujeito e subjacente à
Igreja, à autoridade desta, aos seus dogmas e aos regulamentos eclesiásticos; a
Educação Renascentista formou o gentil-homem, sujeito às etiquetas e normas
sociais, apegado à cultura mundana; a Educação Moderna formou o homem
esclarecido, amante das Ciências e das Artes, céptico em matéria religiosa,
vagamente deísta em fase de transição para o materialismo.
Enfim, a Educação Nova formou o homem
psicológico dos nossos dias, angustiado
e com desejo ardente de se libertar das depressões e abatimentos morais e
físicos, das amarras angustiantes e dos traumas psíquicos do passado,
substituindo o confessionário pelo consultório psiquiátrico e psicanalítico,
reduzindo a religião à mera convenção pragmática.
Na concepção dos educadores espíritas, a
exemplo de Herculano Pires (1985); de Alves (2005a; 2005b); de Incontri (2004;
2005) dentre outros, não é mais possível educar as gerações novas seguindo os
princípios e diretrizes dos modelos e modalidades anteriores de educação. Muito
provavelmente originam-se daí a rebeldia, a ausência de valores, o desrespeito
que cotidianamente presenciamos nas escolas e nas vias públicas. A inquietação,
a excitação da juventude são reflexos da insatisfação com a ordem política,
social e cultural, todas obsoletas, no estágio em que se encontram.
Daí se segue que a Educação Espírita impõe-se
como exigência dos dias de hoje. Somente ela, segundo Pires (1985), reúne
subsídios capazes de orientar as pessoas, mormente as crianças e adolescentes
para a formação de um homem “novo”, consciente de que ele faz parte de um
contexto social ao qual deve respeito e a obrigação de lhe ser útil em todos os
aspectos da vida comunitária, pois pelo fato de ser membro afetivo e efetivo
desse meio, por sua natureza específica, também pertence à Humanidade Cósmica e
não à exiguidade dos limites da humanidade terrena.
Segundo o autor, só a Educação Espírita
poderá nos proporcionar, nesse homem “novo”, a síntese de todas as fases da
evolução anterior, numa formulação superior. Isto porque o homem consciente de
que essa nova Educação nos revelará, será simultaneamente o cidadão, o cristão,
o gentil-homem, o homem esclarecido, portanto, receptivo a novas ideias e
comportamentos e o homem psicológico, mas na conjugação, na junção de todos
esses elementos numa dimensão espiritual cósmica ou universal.
A ideia apresentada aqui não tem a pretensão
de convencimento ou de afirmar cegamente que toda a Humanidade deve
converter-se ao Espiritismo, em absoluto! Pois este estudo é mais um despertar
de consciências, um conclamar do que propriamente uma convocação. As
convicções, no entanto, anunciam a quem
se dispõe a ouvir tão somente, que os princípios básicos do Espiritismo e da
Educação Espírita serão as coordenadas do futuro, e por isso irão marcar o
âmbito conceptual e ético da nova formação moral e educacional.
Com efeito, não foi necessário que a
Humanidade toda se convertesse ao Cristianismo para que os princípios deste
remodelassem o mundo! Nessa acepção, o mesmo deve acontecer com a Doutrina
Espírita e sua Pedagogia. Como enfatiza o autor: “A Pedagogia Espírita – como o
fez a Pedagogia Cristã – orientará a nova concepção educacional que está
nascendo em nossos dias” (PIRES, 1985, p. 27).
Existe
a proliferação de um pensamento de concepção bastante comum nos meios
acadêmicos, que não reflete muito bem a realidade conceptiva do que seja na
verdade Educação. Pois bem, quando se aborda acerca da prática da Educação em
um âmbito sócio-educacional, com muita frequência, uma boa maioria espera uma
receita pronta em sua plenitude e infalível, em que o suficiente é aplicá-la
sistemática e mecanicamente e daí resultando um produto de burilado perfeito, a
exemplo de como procedem as donas-de-casa que se utilizam de uma receita-guia
quando pretendem confeccionar um bolo ou outra qualquer produção culinária do
gênero.
A
Educação Moral, a partir da concepção Espírita, é muito mais uma influência
global de ser humano para ser humano, de Espírito para Espírito, do que
propriamente a adoção de receitas e de regras específicas e infalíveis que
possam ser prescritas e gerar bons resultados. O hodierno não suporta mais
conviver com protótipos de educação sistematizados e orientados a partir de
procedimentos e de princípios articulados por projetos rígidos e inflexíveis
(INCONTRI, 2004).
O
professor titular da Faculdade de Educação da Unicamp, Pedro Goergen, ao
discutir em seu Artigo Educação Moral: Adestramento ou reflexão comunicativa,
sobre essa temática, não diverge de Incontri quando pontua que a Educação Moral
não serve para internalizar normas e regras específicas, corretas e infalíveis,
mas para aprender que as normas são necessárias como parâmetros de salvaguarda
de princípios mínimos de convivência humana, como o respeito à vida, à
dignidade do indivíduo, o respeito ao meio ambiente, e para aprender a lidar
com estes princípios em circunstâncias concretas (GOERGEN, 2001).
Segundo o autor supracitado, não
existe uma economia moral definitiva, isto é, um equilíbrio ideal entre normas
e sua aplicação concreta que possa ser esterilizado do contágio da
circunstancialidade e tornar-se fixo. “Normas e princípios morais são
prescrições frágeis que permanentemente oferecem oportunidade para a educação”
(OELKERS, 1992, p. 14. Apud GOERGEN, 2001).
Então,
com efeito, a Educação Moral não pode ser interpretada como uma internalização
mecânica ou literal de normas. Educação Moral é muito mais um processo de
familiarização com um discurso moral a partir de princípios gerais,
normatizados pelos pais e pelo exemplo destes, na sua interface com
circunstâncias reais. Não é da competência da Educação Moral assumir
deliberadamente um controle do mundo moral. Entendemos que a Educação Moral,
como esperança renovadora, tem a tarefa concreta de restringir-se à introdução
do educando no contexto dos princípios morais e nos modelos de debate, sendo
que ela não dispõe de recursos ou mesmo de autoridade para impor radical e
coercitivamente determinadas formas de comportamento, livres de desvios e de
suas influências.
Existem
alguns princípios e ideais que são exclusivos da Educação Moral Espírita que
precisam ser exteriorizados neste ínterim. Pois bem, a modalidade de Educação
Moral na perspectiva Espírita almeja e formula nos seus ideais uma sociedade
autônoma, não uma sociedade heterônoma ou uma sociedade em estado de anomia, o
que nos parece ser mais degradante ainda. A moral autônoma não admite normas
tampouco regulamentos vindos do exterior a fim de coagir as pessoas a
procederem corretamente em sociedade. Aí seria coerção, intimidação. As
sociedades e seus atores sociais, quando em estado de autonomia não precisam de
coação ou de intimidação. A lei não vem do exterior para se fazer cumprir; a
lei está no interior e na consciência de cada indivíduo social.
Na
moral heterônoma as regras e os deveres são vistos como externos, e são
impostos coercitivamente e não como obrigações elaboradas pela consciência.
Nessa hipótese, o bem é visto como o cumprimento da ordem, o certo, portanto, é
a observação da regra imposta socialmente.