quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Neste Blogger seguem-se outros artigos do autor: Getúlio Botelho Amora.




2.3.1. Síntese da Origem e Evolução Histórica da Educação Espírita.

Neste ainda despontar do Século XXI, a humanidade está vivenciando, embora timidamente, os auspícios de uma “nova” modalidade de educação – nova no sentido de que ela tem apenas 156 anos. Trata-se, pois, da Educação Moral Espírita que se nos apresenta uma proposta renovadora de educação para a reforma íntimo-moral, para a aquisição e edificação dos valores éticos e morais do ser humano. Com efeito, vale ressaltar, todavia, que parte dessa humanidade está vivendo a época edificante da Educação Espírita, a época da educação para o Espírito encarnado. Enfim, uma boa parcela da humanidade está, deveras, vivenciando a época do “paradigma do Espírito” (INCONTRI, 2004 p. 80).
A respeito do paradigma do Espírito, a professora e escritora Dora Incontri, justifica:
O Espírito vem sendo apreendido empiricamente em toda a história da humanidade, mas a partir do século XIX passou a ser objeto de pesquisas científicas. Considerando-se que a ciência possa alcançar algum grau de segurança em suas teorias, quando confrontada com os fatos, até agora, as pesquisas realizadas desde os primórdios de Kardec, passando pela velha metapsíquica e chegando à atual parapsicologia, tem evidenciado a existência de um princípio existencial independente do corpo biológico e que pode agir por meios extrafísicos. Em alguns casos, demonstra-se que esse princípio espiritual sobrevive à morte do corpo (INCONTRI, 2004, p. 84).
Então, notório é que os fatos relativos à percepção extra-sensorial ainda não se ajustam à teoria física da ciência dos homens, a ciência materialista, aquela que Infelizmente ainda se encontra radicalizada e incrustada nos íntimos das esferas do materialismo céptico. O tempo trará a todos, com certeza, boas “novas”, retirando o véu e a catarata que oblitera a visão e a razão dos mais agnósticos e menos crédulos.
Com efeito, o nascimento da Educação Espírita ainda não se completou. Começando com Kardec, em 1857, na França, portanto, há mais de um século e meio, entretanto, ainda está se processando em nossos dias. Por esta razão, faz-se mister que todos os cristãos sintam-se convocados a participar desse tão dignificante e extraordinário acontecimento educacional e espiritual, pois, só assim é que poderemos contribuir eficazmente, cada qual à sua maneira, a seu jeito e a seu tempo, a fim de que ele possa se completar e se efetivar definitivamente e o mais rapidamente possível (PIRES, 1985).
A propósito, cada educação teve a sua época respectiva, teve a sua missão edificante, dinamizadora e facilitadora da formação dos indivíduos. É oportuno destacar que a grande missão da Educação Espírita, na época atual, é a formação moral e o desenvolvimento integral do ser humano, ou seja, a edificação de um homem novo. Nenhuma outra modalidade de educação trouxe essa proposta moral para o ser humano, visto que ela não está presa a dogmatismos tradicionais, a fanatismos, tampouco à catequização que alicia, que aliena e estigmatiza e, que não raro, tenta agir pelo convencimento (PIRES, 1985).
Em vista disso, de acordo com o autor supracitado, a Educação Clássica greco-romana formou o cidadão, o homem vinculado à cidadania e suas leis, servidor do Império; a Educação Medieval formou o cristão, o homem submisso a Cristo, portanto, sujeito e subjacente à Igreja, à autoridade desta, aos seus dogmas e aos regulamentos eclesiásticos; a Educação Renascentista formou o gentil-homem, sujeito às etiquetas e normas sociais, apegado à cultura mundana; a Educação Moderna formou o homem esclarecido, amante das Ciências e das Artes, céptico em matéria religiosa, vagamente deísta em fase de transição para o materialismo.
Enfim, a Educação Nova formou o homem psicológico dos nossos dias,  angustiado e com desejo ardente de se libertar das depressões e abatimentos morais e físicos, das amarras angustiantes e dos traumas psíquicos do passado, substituindo o confessionário pelo consultório psiquiátrico e psicanalítico, reduzindo a religião à mera convenção pragmática.
Na concepção dos educadores espíritas, a exemplo de Herculano Pires (1985); de Alves (2005a; 2005b); de Incontri (2004; 2005) dentre outros, não é mais possível educar as gerações novas seguindo os princípios e diretrizes dos modelos e modalidades anteriores de educação. Muito provavelmente originam-se daí a rebeldia, a ausência de valores, o desrespeito que cotidianamente presenciamos nas escolas e nas vias públicas. A inquietação, a excitação da juventude são reflexos da insatisfação com a ordem política, social e cultural, todas obsoletas, no estágio em que se encontram.
Daí se segue que a Educação Espírita impõe-se como exigência dos dias de hoje. Somente ela, segundo Pires (1985), reúne subsídios capazes de orientar as pessoas, mormente as crianças e adolescentes para a formação de um homem “novo”, consciente de que ele faz parte de um contexto social ao qual deve respeito e a obrigação de lhe ser útil em todos os aspectos da vida comunitária, pois pelo fato de ser membro afetivo e efetivo desse meio, por sua natureza específica, também pertence à Humanidade Cósmica e não à exiguidade dos limites da humanidade terrena.  
Segundo o autor, só a Educação Espírita poderá nos proporcionar, nesse homem “novo”, a síntese de todas as fases da evolução anterior, numa formulação superior. Isto porque o homem consciente de que essa nova Educação nos revelará, será simultaneamente o cidadão, o cristão, o gentil-homem, o homem esclarecido, portanto, receptivo a novas ideias e comportamentos e o homem psicológico, mas na conjugação, na junção de todos esses elementos numa dimensão espiritual cósmica ou universal.
A ideia apresentada aqui não tem a pretensão de convencimento ou de afirmar cegamente que toda a Humanidade deve converter-se ao Espiritismo, em absoluto! Pois este estudo é mais um despertar de consciências, um conclamar do que propriamente uma convocação. As convicções, no entanto,  anunciam a quem se dispõe a ouvir tão somente, que os princípios básicos do Espiritismo e da Educação Espírita serão as coordenadas do futuro, e por isso irão marcar o âmbito conceptual e ético da nova formação moral e educacional.
Com efeito, não foi necessário que a Humanidade toda se convertesse ao Cristianismo para que os princípios deste remodelassem o mundo! Nessa acepção, o mesmo deve acontecer com a Doutrina Espírita e sua Pedagogia. Como enfatiza o autor: “A Pedagogia Espírita – como o fez a Pedagogia Cristã – orientará a nova concepção educacional que está nascendo em nossos dias” (PIRES, 1985, p. 27).
Existe a proliferação de um pensamento de concepção bastante comum nos meios acadêmicos, que não reflete muito bem a realidade conceptiva do que seja na verdade Educação. Pois bem, quando se aborda acerca da prática da Educação em um âmbito sócio-educacional, com muita frequência, uma boa maioria espera uma receita pronta em sua plenitude e infalível, em que o suficiente é aplicá-la sistemática e mecanicamente e daí resultando um produto de burilado perfeito, a exemplo de como procedem as donas-de-casa que se utilizam de uma receita-guia quando pretendem confeccionar um bolo ou outra qualquer produção culinária do gênero.
A Educação Moral, a partir da concepção Espírita, é muito mais uma influência global de ser humano para ser humano, de Espírito para Espírito, do que propriamente a adoção de receitas e de regras específicas e infalíveis que possam ser prescritas e gerar bons resultados. O hodierno não suporta mais conviver com protótipos de educação sistematizados e orientados a partir de procedimentos e de princípios articulados por projetos rígidos e inflexíveis (INCONTRI, 2004).
O professor titular da Faculdade de Educação da Unicamp, Pedro Goergen, ao discutir em seu Artigo Educação Moral: Adestramento ou reflexão comunicativa, sobre essa temática, não diverge de Incontri quando pontua que a Educação Moral não serve para internalizar normas e regras específicas, corretas e infalíveis, mas para aprender que as normas são necessárias como parâmetros de salvaguarda de princípios mínimos de convivência humana, como o respeito à vida, à dignidade do indivíduo, o respeito ao meio ambiente, e para aprender a lidar com estes princípios em circunstâncias concretas (GOERGEN, 2001).
            Segundo o autor supracitado, não existe uma economia moral definitiva, isto é, um equilíbrio ideal entre normas e sua aplicação concreta que possa ser esterilizado do contágio da circunstancialidade e tornar-se fixo. “Normas e princípios morais são prescrições frágeis que permanentemente oferecem oportunidade para a educação” (OELKERS, 1992, p. 14. Apud GOERGEN, 2001).
Então, com efeito, a Educação Moral não pode ser interpretada como uma internalização mecânica ou literal de normas. Educação Moral é muito mais um processo de familiarização com um discurso moral a partir de princípios gerais, normatizados pelos pais e pelo exemplo destes, na sua interface com circunstâncias reais. Não é da competência da Educação Moral assumir deliberadamente um controle do mundo moral. Entendemos que a Educação Moral, como esperança renovadora, tem a tarefa concreta de restringir-se à introdução do educando no contexto dos princípios morais e nos modelos de debate, sendo que ela não dispõe de recursos ou mesmo de autoridade para impor radical e coercitivamente determinadas formas de comportamento, livres de desvios e de suas influências.
Existem alguns princípios e ideais que são exclusivos da Educação Moral Espírita que precisam ser exteriorizados neste ínterim. Pois bem, a modalidade de Educação Moral na perspectiva Espírita almeja e formula nos seus ideais uma sociedade autônoma, não uma sociedade heterônoma ou uma sociedade em estado de anomia, o que nos parece ser mais degradante ainda. A moral autônoma não admite normas tampouco regulamentos vindos do exterior a fim de coagir as pessoas a procederem corretamente em sociedade. Aí seria coerção, intimidação. As sociedades e seus atores sociais, quando em estado de autonomia não precisam de coação ou de intimidação. A lei não vem do exterior para se fazer cumprir; a lei está no interior e na consciência de cada indivíduo social.
Na moral heterônoma as regras e os deveres são vistos como externos, e são impostos coercitivamente e não como obrigações elaboradas pela consciência. Nessa hipótese, o bem é visto como o cumprimento da ordem, o certo, portanto, é a observação da regra imposta socialmente.